— 05 de dezembro de 2022
O convite do nosso desfile no SPFW de 2022 da coleção Santa Teresa foi um mapa de lugares e pessoas afetuosas do bairro carioca. Feito a mão em nanquim, impresso em silk e manualmente finalizado; o verso apresenta o texto de Luiza Mello, nossa curadora convidada, que nos transporta para um passeio pelas ladeiras e casas antigas de Santa Teresa. LEIA MAIS

O bairro de Santa Teresa está localizado na região central do Rio de Janeiro, no alto de um morro. Subindo suas ladeiras, a temperatura cai, o tempo parece mais lento e nos deparamos com uma perspectiva diferente da cidade. Avistamos de cima suas ocupações urbanas e arquitetônicas, sua topografia com montanhas sinuosas e vegetação exuberante. Em outra escala, caminhando pelas ruas de paralelepípedo, vemos construções históricas do século XIX, casarões, edifícios de menor escala, largos e praças, a grande maioria rodeados por árvores da floresta tropical. 

O ponto de partida para a criação da coleção Handred x Santa Teresa foi a escolha do cenário do bairro para a celebração dos dez anos da marca: além de ser um lugar que de forma única reúne características e conceitos de referência para a Handred, como história, arquitetura, nostalgia, natureza e cidade, Santa Teresa é palco de grandes festejos.

No início do século 17, o bairro já recebia festas populares e religiosas no entorno da Capela de Nossa Senhora do Desterro, que atraía devotos, romeiros e peregrinos. No século 18, foi erguido o Convento de Santa Teresa, que deu nome ao bairro. Desde o início, Santa Teresa abrigou uma população heterogênea, incluindo quilombolas, beatas e beatos, e personagens que marcaram a história e a cultura da cidade. Tornou-se, por isso, reduto de intelectuais, escritores, músicos e artistas desde meados do século 19, característica preservada até os dias de hoje. Nos anos 1990, foi fundado o Bloco das Carmelitas, que homenageava as irmãs do Convento de Santa Teresa. De lá pra cá, multiplicaram-se os blocos que sobem e descem as ladeiras a cada ano, no carnaval, e seus casarões históricos recebem todo o tipo de celebrações.

Para conhecer as memórias e sensações que inspiraram a coleção, fizemos um passeio pelo bairro. Nosso guia foi o diretor artístico da marca, André Namitala, que frequenta a região desde a juventude. Andamos pelas ladeiras e ruas de paralelepípedo, visitamos ateliês, casas, locais de trabalho e conversamos com pessoas que lá vivem. Os relatos e concepções dos artistas e moradores de Santa Teresa se conectaram às histórias da Handred, adicionando camadas de significado à coleção e à trajetória da marca.

Nossa primeira parada foi a residência da família Doyle, um edifício projetado pelo arquiteto modernista Vital Brazil em 1952, com vista deslumbrante para o Cristo Redentor e que abriga uma importante coleção de arte. Fabiano Doyle, de quem André é amigo de longa data, atua de forma independente no mercado de arte. Para ele, a arte antecipa mudanças, dá passos mais largos do que a sociedade pode dar e nos ajuda a entender o mundo em que vivemos. Luzia Ribeiro, mãe dele, é artista visual, consultora de arte e escritora. Para ela, a arte é a própria vida e nos faz ver o mundo de maneiras diferentes. E Santa Teresa, onde vive há 40 anos, é uma ilha urbana, com características que não podem ser encontradas em outro lugar da cidade. Durante muitos anos, André frequentou as comemorações da família que aconteciam em um bar tradicional das redondezas: o Bar do Mineiro. Em busca das memórias afetivas desse lugar, seguimos para a nossa segunda parada.

Decorado com obras de arte, objetos, cartazes, fotografias de artistas e de pessoas que por lá passaram, o Bar do Mineiro é um dos lugares mais icônicos do bairro. Sua atmosfera inspiradora foi criada por Diógenes Paixão, o Mineiro, que gosta de tudo que é bonito e, com 83 anos, está todos os dias no local. Varre o chão da calçada, lê os jornais e conversa com os frequentadores sobre as celebridades que por lá passaram, sua amizade com artistas e viagens pelo mundo. Ouvi-lo é como entrar em um portal que nos conduz em um passeio pela história cultural do país. Suas memórias nos aproximam de personalidades da cultura brasileira que admiramos, por meio de relatos que não encontramos em livros e filmes. Diógenes vive perto do bar, em uma casa cheia de arte que comprou de artistas com que conviveu, principalmente Volpi. Um dos artistas que frequenta o Bar do Mineiro desde sua abertura, em 1992, é o pintor Arjan. Nossa próxima parada é o seu ateliê.

Arjan Martins vive e trabalha em Santa Teresa desde os anos 1990. Chegou no ateliê onde está até hoje por indicação de uma amiga. Se apaixonou pela luz, pela ventilação, pela amplitude do espaço, pelo silêncio e pouco a pouco o lugar foi se transformando junto com o seu trabalho. Começou desenhando elementos de um manual de anatomia humana – primeiramente sobre papel e, logo em seguida, sobre paredes e muros. Em seguida, passou a estudar cartografias que mapeiam memórias coloniais e aprofundou sua relação com a pintura. Ao longo da conversa, em uma tarde fresca de outubro, encontramos semelhanças entre as maneiras como Arjan e André vivenciam seus ateliês e pensam sobre arte. Para ambos, o ateliê é uma zona de afeto e materializa o lugar do artista no mundo. A arte é também uma forma de lidar com os humores, sentimentos, raiva, fúria, desejos e vontades. Nos despedimos refletindo sobre o poder transformador da arte e seguimos para a nossa quarta parada. 

Clara Rio Branco tem 27 anos e mora em Santa Teresa desde os 3. Não frequentou escolas convencionais. Foi educada em um ambiente artístico e estimulada desde cedo a tocar instrumentos, pintar, fazer objetos, jogar capoeira, andar a cavalo e aprender de diferentes maneiras. Faz bordados em forma de livros ou painéis temáticos, com flores, bichos, praias, florestas e instrumentos. Através da arte, expressa seu mundo interno, as fantasias, desejos e sonhos que povoam sua mente. Os bordados de Clara se conectam com o interesse da Handred pelo fazer manual, e com a visão de Namitala de que a arte é uma forma de expressão, um lugar de possibilidades onde podemos colocar em prática sentimentos mais profundos. Inspirados pelo amor de Clara pela música e em busca de diferentes estímulos sensoriais, seguimos para o estúdio de uma contrabaixista.

Sandra Nisseli nasceu em Juazeiro, na Bahia, e cresceu em Carajás, no Pará. Andou pelo Brasil em busca de lugares para tocar seu instrumento: Belém, São Paulo, Pelotas, Porto Alegre, Florianópolis. Quando chegou em Santa Teresa, lembrou do Centro Histórico de São Luís do Maranhão e do Recife antigo. Tocava no Centro do Rio e, na volta, subia as ladeiras a pé com o contrabaixo nas costas. Guarda na memória com alegria a reação das pessoas: algumas ofereciam ajuda; outras, carona; e as crianças pediam para tirar fotos. Os tempos são outros, mas a região manteve a cordialidade – os moradores, por exemplo, ainda conversam nas ruas. Sandra escolheu morar ali por causa do ambiente favorável à música, da conexão entre as pessoas, das belezas e do colorido de Santa Teresa. Para ela, a arte desperta a sensação de liberdade. Os sentimentos vivenciados no bairro por Sandra também aparecem na coleção, seja na característica de cidades históricas presente na estampa de paralelepípedos ou no colorido da paisagem que observamos nos tons alaranjados do entardecer do bairro, que se apresenta na estampa Alvorada.

Na prática de pesquisa que a Handred vem realizando desde a coleção Brennand, cada roupa se inspira e agrega conceitos, afetos e memórias de paisagens, personagens e patrimônios locais, sejam eles materiais ou imateriais.

 

Luiza Mello

 

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